Se você já teve uma dor de cabeça tão forte que precisou se deitar num quarto escuro e silencioso, provavelmente já conhece a enxaqueca de perto. Ela é muito mais comum do que se imagina: estima-se que afeta entre 12% e 15% da população, sendo bem mais frequente em mulheres do que em homens. A faixa etária mais atingida é dos 30 aos 39 anos, período em que chega a afetar quase 1 em cada 4 mulheres.
Neste texto, explicamos de forma simples o que causa a enxaqueca, como ela costuma se manifestar e quando vale a pena procurar um médico.
O que acontece no cérebro durante uma crise
Por muito tempo, acreditou-se que a enxaqueca era causada apenas pela dilatação dos vasossanguíneos do cérebro. Hoje sabemos que a explicação é mais complexa: a crise começa com uma disfunção temporária na atividade dos neurônios, que dispara uma sequência de eventos no cérebro e ao redor dele.
Um dos principais mecanismos envolvidos é chamado de depressão alastrante cortical — uma onda de atividade elétrica anormal que se espalha pelo córtex cerebral. Esse fenômeno está relacionado ao surgimento da aura (os sintomas visuais e sensoriais que algumas pessoas sentem antes da dor) e também ativa nervos ligados à dor na região da cabeça, o chamado sistema trigeminovascular.
Essa ativação libera substâncias inflamatórias que intensificam e prolongam a dor.
Duas moléculas merecem destaque nesse processo:
• Serotonina: parece ter um papel importante no controle da dor, embora sua função exata ainda não seja totalmente compreendida.
• CGRP (peptídeo relacionado ao gene da calcitonina): é liberado durante as crises e
contribui tanto para a dor quanto para a inflamação nos vasos sanguíneos da cabeça. Por isso, ele se tornou alvo de tratamentos mais modernos contra a enxaqueca.
A enxaqueca é hereditária?
Em grande parte, sim. Estudos com gêmeos mostram que fatores genéticos respondem por cerca de 40% a 50% da tendência de uma pessoa desenvolver enxaqueca. Ter parentes próximos com o problema aumenta consideravelmente o risco — mas, como envolve vários genes atuando junto com fatores do ambiente, não existe um “gene único” responsável, exceto em formas raras e específicas, como a enxaqueca hemiplégica familiar.
As quatro fases de uma crise
Uma crise típica de enxaqueca pode se desenrolar ao longo de horas ou até dias, passando por até quatro fases:
1. Pródromo — Começa de 24 a 48 horas antes da dor e pode incluir sensibilidade à luz e ao som, cansaço, dor no pescoço, irritabilidade, alterações de humor, desejo por certos
alimentos e até bocejos frequentes.
2. Aura — Ocorre em cerca de 1 em cada 4 pessoas com enxaqueca. São sintomas
neurológicos temporários que se desenvolvem aos poucos, ao longo de alguns minutos, e duram no máximo uma hora. Os tipos mais comuns são:
• Visual: pontos brilhantes, linhas em zigue-zague ou áreas de visão embaçada, geralmente começando perto do centro do campo visual e se espalhando.
• Sensitiva: formigamento que evolui para dormência em um lado do rosto ou de um membro. Menos frequentemente, dificuldade para falar ou fraqueza em um lado do corpo (essa última é considerada um sinal de alerta e merece avaliação médica).
• Dor de cabeça — Costuma ser latejante, muitas vezes de um só lado da cabeça, e piora com atividade física. É comum vir acompanhada de náusea, vômito e sensibilidade à luz e ao som. Sem tratamento, pode durar de 4 horas até 3 dias.
• Pós-drome — Depois que a dor passa, muitas pessoas se sentem exaustas, “desligadas” ou com a cabeça sensível a movimentos bruscos por várias horas, às vezes até um dia inteiro.
Vale lembrar: nem toda crise passa por todas as fases, e a intensidade varia muito de pessoa para pessoa.
O que pode desencadear uma crise
Cada pessoa tem seus próprios gatilhos, mas os mais relatados incluem:
• Estresse emocional
• Alterações hormonais (muito comum em mulheres, ligado ao ciclo menstrual)
• Pular refeições ou ficar muito tempo sem comer
• Mudanças climáticas
• Noites mal dormidas ou sono irregular
• Luzes fortes, cheiros intensos e barulho
• Álcool, especialmente vinho tinto
• Excesso de peso corporal
Identificar seus próprios padrões — por exemplo, anotando em um diário quando as crises aparecem — pode ajudar bastante a preveni-las.
Como é feito o diagnóstico
Não existe exame de sangue ou de imagem que “comprove” a enxaqueca. O diagnóstico é clínico, baseado na história contada pelo paciente e em critérios bem estabelecidos, como:
• Pelo menos cinco crises de dor de cabeça durando de 4 a 72 horas (sem tratamento)
• Dor de um lado só, com caráter latejante, de intensidade moderada a forte, que piora com esforço físico
• Presença de náusea/vômito e/ou sensibilidade à luz e ao som
• Exames de imagem, como ressonância magnética, geralmente só são solicitados quando há sinais de alerta — por exemplo, dor de início muito súbito, alterações no exame neurológico, início após os 50 anos ou mudança recente no padrão das crises. Isso ajuda a descartar outras causas mais raras, mas que precisam ser investigadas.
Quando procurar ajuda médica
Vale agendar uma consulta se você:
• Tem dores de cabeça frequentes que atrapalham seu dia a dia
• Percebeu mudança recente no padrão, frequência ou intensidade das dores
• Sente sintomas neurológicos associados, como fraqueza ou alteração na fala
• Teve uma dor de cabeça muito diferente das habituais, de início muito abrupto
A boa notícia é que a enxaqueca tem tratamento — tanto para aliviar as crises quando elas acontecem quanto para reduzir sua frequência a longo prazo. Um diagnóstico correto é o primeiro passo para recuperar a qualidade de vida.
Este texto tem caráter informativo e não substitui uma avaliação médica individual.
Se você sofre com dores de cabeça frequentes, agende uma consulta na Clínica Heritage.
Referências
Este texto foi baseado no artigo "Pathophysiology, clinical manifestations, and diagnosis of migraine in adults" (UpToDate, 2026, F Michael Cutrer, MD), especialmente nos seguintes estudos:
5. Ashina M. Migraine. N Engl J Med 2020; 383:1866. 6. Charles A, Pozo-Rosich P. Targeting calcitonin gene-related peptide: a new era in migraine therapy. Lancet 2019; 394:1765. 7. Headache Classification Committee of the International Headache Society (IHS). The International Classification of Headache Disorders, 3rd edition. Cephalalgia 2018; 38:1.
Lista completa de referências disponível no artigo original da UpToDate.
